segunda-feira, 26 de junho de 2017

Moreno: jornalismo e vida em grandes goles


Em algum aeroporto,  na cobertura da Campanha das Diretas.pelo Globo, 1984

         
no aniversário de 2  anos de meu filho Rodrigo, seu afilhado. O outro menino que ele abraça, no chão,  é o Felipe Fernandes, filho de Rodolfo e Sandra,  hoje líder da banda Sargento Pimenta. 1993.


      
         "Moreno morreu de tanto viver."  Assino embaixo, digo à Ana Tavares, a primeira pessoa para quem ligo ao chegar ao Brasil,  dez dias depois da morte dele.   Concordo com a síntese perfeita embora,  nos últimos 10 anos, eu não tenha estado “dentro” da vida intensa do Moreno, como nos 30 anos que vão de nosso encontro na UnB, como estudantes, em 1977,  ao ano de 2007,  em que ele se muda para o Rio e eu deixo as Organizações Globo, onde trabalhamos juntos por 24 anos.  Ana, juntamente com Ali Kamel e Sandra Fernandes,  morando no Rio,  são talvez os únicos  participantes da “turma do Pacu”,  nossa tribo em Brasília,   que se tornam também frequentadores da glamurosa  “Lage” onde pouco estive.  Para a sofreguidão de viver do Moreno,  um dia Brasília ficou pequena e provinciana. Ele precisava de mais luz, mais gente, mais brilho.  É do Moreno do tempo de Brasília que eu preciso falar um pouco, embora com atraso, depois que tantos já o choraram e reverenciaram.
         Nem por isso, por não ter estado dentro da bolha efervescente de sua vida nos últimos tempos,  o soco no coração foi menor quando a notícia de sua morte – sempre temida mas sempre esconjurada pela ilusão de sua eternidade -  me alcançou  por whatsaapp na Victoria Station, tomando o metrô para uma reunião de trabalho lá em Londres.   Como  nos velhos tempos, quando  navegávamos naquela relação complexa de entregas e cobranças, de brigas fingidas e reconciliações sentimentais,   protestei mentalmente: “Moreno, como é que você resolve morrer numa hora destas, quando estou fora do pais e nem poderei  ir me despedir?”.   Ali mesmo gravei um vídeo meio transtornado e meio tosco no celular e pedi ao Rodrigo  – meu filho, que ele batizou e que se orgulhava tanto dele   - que postasse no Facebook.  Foi minha forma de justificar para o Moreno minha ausência em seu velório.  Sempre temi as cobranças do Moreno. Nunca ousei recusar uma convocação dele para uma tertúlia, especialmente se fosse política,  pois como colunista do Globo eu fazia ali um certo papel de isca. Sabíamos disso.   Dizer não a ele era sempre comprar briga, coisa que nós, suas amigas, evitávamos ao máximo. Especialmente eu e Cristiana Lobo, por conta da ambição de controle que ele sempre teve sobre nós duas, naqueles velhos tempos.   
         Chegando ao Brasil, além de ligar para a Ana, passei dois dias lambendo a ferida, lendo na Internet  tudo o que foi publicado sobre a morte dele.   Moreno deve ter aprovado e adorado seu próprio funeral. Foi digno dele.  O conjunto da cenografia faz pensar no funeral de um homem de Estado, de um luminar da Cultura, de um pop-star, de um ser humano muito querido . Pois em verdade ele foi um pouco de tudo isso, para além de um grande jornalista.  Obrigo a Ana a me contar detalhes de seu último almoço com ele, na véspera da morte, presente o Seu Bastos, o tio dele que sempre  encontrávamos na casa de Brasília.    Faço com que ela me conte tudo do funeral.  Ela conta,  mas também  quer recordar os velhos tempos.   Ana já era assessora de imprensa de Fernando Henrique Cardoso quando ele assumiu o Senado, em 1983. Ainda vivia em São Paulo quando foi  “adotada” pelo Moreno como fonte e como irmã querida e respeitada.  Recordamos dezenas de passagens que vivemos juntos, inclusive nossa tumultuada viagem a Cuiabá para o enterro de seu Juca, o pai de Moreno. Pouco tempo depois morreu a mãe, dona Alzira.   Eles eram, para o Jorge,  a ponte entre Brasília e Cuiabá.  Depois que eles se foram, acho que Moreno sentiu-se mais livre para se fixar no Rio, onde se tornou xamã de outra tribo, luzente de belas atrizes, músicos, celebridades. Ele continuava agregando pessoas, sem perder o fio com as fontes importantes da política.
                   Ora, dirão,  estou  falando da pessoa e não do grande jornalista Jorge Bastos Moreno.  Talvez esteja também falando muito de mim mesma numa elegia.  Ok, quem puder que separe as duas figuras. Eu não sou capaz.  Moreno foi o jornalista que foi por determinação de sua personalidade ímpar.  A combinação entre suas grandes qualidades e alguns defeitos agudos (entre eles a falta de limites para viver, comer e tudo o mais que desse prazer)  produziu  a pessoa extraordinária  que se entregou de corpo e alma à profissão,   para nela realizar grandes feitos e deixar exemplo.  Fazia parte de sua paixão pela vida a  busca do  não-sabido  para compartilhá-lo com os outros em forma de notícia.   Nele, jornalismo e vida era uma só coisa. Por isso não separo. Ademais, acho que estou escrevendo apenas para mim mesma, e o faço como quero.  Tudo junto e misturado.
         Foi ainda na Universidade que sobressaiu-se a força do repórter na pessoa do Moreno. Em 1977, fizemos uma greve heroica na UnB contra o reitor imposto pela ditadura, o capitão-de-mar-e-guerra josé Carlos Azevedo.  Ele punira alguns estudantes por um ato público em  memória de Edson Luiz, morto pela ditadura no restaurante Calabouço nove anos antes.  Em nossa santa insolência resistente, pedíamos a  cabeça do reitor,  bancado  por um homem forte do regime, o general Hugo Abreu,  chefe da Casa Militar de Geisel.  A greve se arrastou, o campus foi invadido, outros mais foram punidos. Eu era da vanguarda estudantil e era amiga do Moreno. Ele ainda não se formara mas já trabalhava no Jornal de Brasília como repórter. Fez uma longa entrevista com Azevedo. Uma boa entrevista, que expunha o autoritarismo do reitor. Muitos o criticaram.  Outros, como eu, o defenderam.  Ele fizera a entrevista como  repórter e devia ser respeitado como tal.  A patrulha calou-se. Ali mesmo, no Jornal de Brasília, no ano seguinte,  ele daria seu primeiro grande furo, ao revelar que Figueiredo seria o sucessor escolhido de Geisel.
         Moreno se formou e seguiu em frente. Logo estaria em O Globo.  Após  um processo,   uma clandestinidade de dois anos no Rio e a Anistia, voltei a Brasília e me formei em 1981. Passei pela TV Brasília, Jornal de Brasília e Correio Braziliense antes de abril de 1983, quando Moreno me indicou para uma vaga de setorista do Congresso  no Globo.  Vinda dele, a indicação foi aceita pelo coordenador de política, Antônio Martins, e pelo diretor da sucursal, José Carlos de Andrade. A partir daí, pelos 24 anos seguintes, tivemos uma convivência profissional diária, fomos unha e carne na vida pessoal,  tivemos brigas e reconciliações em série e provamos a força de nossa amizade nos bons e maus momentos de nossas vidas. 
         Nos anos 80, éramos jovens, duros e acreditávamos no país que haveria de surgir com o fim da ditadura, já então desdentada.  Moreno morava  num apartamento de quarto-e-sala na 310 norte e ali fez suas primeiras tertúlias político-gastronômicas.   Eu estava no primeiro jantar que ele ofereceu ao comandante da oposição, Ulysses Guimarães, à base de peixes pantaneiros. Lembro-me de um peixe enorme numa travessa. Acho que ainda não era o pacu.   Lá estavam, espremidos na salinha, além de doutor  Ulysses, os deputados Airton Soares e Cristina Tavares, e mais uns dois ou três.  Alguns de nós, jornalistas,  fomos comer no quarto.  Mas logo ele se mudaria para a casa da QL 2, a primeira em que morou no Lago Norte, e lá os almoços e jantares se ampliaram. A antecessora da Carlúcia era a Joaninha, que também cozinhava muito bem.
         Em 1984, viajamos pelo Brasil afora cobrindo a campanha das diretas. Tudo era uma festa.   Depois, cobrindo os comícios que procuravam dar legitimidade à candidatura de Tancredo pelo Colégio Eleitoral, na transição pactuada que o Brasil acabou fazendo, após a derrota da emenda Dante de Oliveira pela ditadura.    A relação de Moreno com Ulysses e Tancredo daria outro livro que ele não quis ou não teve tempo de escrever.
          Após a eleição de Tancredo, em janeiro de 1985, o Globo escalou Moreno para cobrir a viagem de Tancredo por vários países, avisando ao mundo que a ditadura no Brasil acabara.  Morri de inveja mas era tarefa para ele mesmo, com seu faro e seu acesso ao presidente eleito.  Em março, entretanto, Tancredo é operado na véspera da posse, e transferido para o Incor, em São Paulo. Eu e Moreno fomos mandados para lá, e logo recebemos o reforço  do Luis Erlanger, pois a cobertura era diuturna. Nós nos revezávamos e eu esperava que Tancredo morresse no turno do Moreno, que era mais experiente para escrever uma matéria tão trágica para o país.  Na noite de 21 de abril, estando de folga, ele aceitou o convite de Jô Soares para um show do humorista num teatro paulistano.  Tancredo morreu quando eu e Erlanger estamos de plantão, e tivemos que nos virar. Quando Jô anunciou no palco o que acabava de acontecer, Moreno se mandou para o hospital para nos ajudar;
         Vieram o turbulento governo Sarney, a Constituinte e os governos democráticos seguintes.   A redação do Globo era um celeiro de jovens jornalistas dispostos a desbravar os novos tempos democráticos que estavam chegando.  Faziam também parte da equipe de política quando cheguei, se a memória não me trai,  Cristiana Lobo,  Cida Fontes, Silvia Faria,  Miriam Moura, Consuelo Dieguez,  Graça Ramos, Monica Yanakiev,  Vera Manzolilo,  Ariosto Teixeiria, que já se foi também, e logo chegaria o Robson Barenho.   Estou omitindo muitos nomes por esquecimento.  Moreno já era uma espécie de decano da turma, o campeão dos furos e o indicador do rumo dos ventos para os diretores.
         Virei colunista, por graça do Evandro Carlos de Andrade, no ano de 1985, e isso incomodou um pouco o Moreno. Depois ele assimilou o fato e tornou-se um importante colaborador da coluna, a mesma onde agora, sob a titularidade de Lydia Medeiros, ele veio a ter um “cantinho do Moreno”.  Este nicho, no meu tempo, já existia na prática.  Talvez tenha faltado sensibilidade minha para fazer a proposta. Ou generosidade. Ou criatividade. Ele teria gostado.  Quando se incomodava com alguma coisa minha, ele dizia: “criei uma cobra”.  Mas gostava mesmo era de repetir o “Tereza Cascavel” que certa vez o saudoso Severo Gomes me lançara, por conta de uma nota maldosa.  
         Severo  e sua mulher Henriqueta foram grandes amigos de Moreno. Morreram com Dr. Ulysses e dona Mora no acidente do helicóptero que caiu no mar depois de Angra.  Nós, amigos do Moreno, temíamos pela reação dele à morte do “velho” mas ele assimilou o golpe.   Foi de Severo que ouvi uma explicação tocante sobre seu modo ilimitado de viver. Moreno começara a sofrer do coração mas não parava de comer, de fumar, de receber  e de se matar de trabalhar em busca de furos e feitos. Eu e Sandra, nesta época, éramos as padioleiras, sempre a levá-lo ao pronto-socorro, às vezes ao Rio e a São Paulo.  Saindo do Piantela, depois de uma noitada política em que Moreno regera a noite, ao comentar seus excessos Severo  diagnosticou: “Ele carrega uma dor que só consegue sublimar assim,  vivendo desbragadamente”.
         Nos anos da transição, Moreno tinha um trunfo que nos suplantava a todos,  a relação especial com Ulysses.  Ao se candidatar,  na primeira eleição presidencial, em 1989, Ulysses o convocou para ser seu assessor de imprensa. Moreno hesitou, sofreu com o dilema: não podia dizer não a Ulysses,  já tão traído por seu partido, numa campanha destinado à derrota. Mas deixar a redação para se tornar assessor de imprensa poderia comprometer sua carreira. Todos nós, seus amigos, apoiamos a decisão final de aceitar. O  Globo havia sinalizado que ele poderia voltar. Voltou e brilhou por mais longos anos. 
         Não foi fácil.   A imprensa não dava  bola para a candidatura de Ulysses, que nunca decolou nas pesquisas.  Collor assumiu a dianteira nas pesquisas e logo atrás vinham, embolados, Lula, Brizola e Covas.  Moreno me fez um pedido. Acompanhar Ulysses numa viagem pelo Nordeste.  Era uma aposta importante para a candidatura, que talvez decolasse com a ajuda de governadores do PMDB.   O Globo autorizou. Num pequeno avião, eu e ele, Ulysses e seu vice Waldyr Pires, corremos alguns perigos nesta viagem que durou uma semana.   Pousamos numa pista cercada pela queimada em  Sobral (CE) e fizemos um pouco arriscado na pequena pista de Teixeira de Freitas (BA). Em Recife, Miguel Arraes ofereceu a Ulysses um comício vazio e um jantar protocolar, como se dissesse: “fiz o que pude, lavei as mãos”.  Ulysses, o timoneiro da oposição, que ensinara ao Brasil o “resistir é preciso”,  que enfrentara os cães da ditadura e arrastara milhões para as ruas na campanha das diretas, terminou em quinto lugar. Moreno voltou ao Globo.
         Ulysses não morreu politicamente com  a derrota de 89. Ainda seria “o condestável” do governo Sarney e o Senhor Constituinte entre 1987 e 1988.  Ainda teve muito poder e influência e Moreno sempre compartilhou conosco seu acesso ao “velho”, como já o chamávamos.    Em torno dele organizava almoços e jantares para os quais convidava não só nós, de O Globo, mas também coleguinhas de outros jornais.   Depois da viagem pelo Nordeste,  passei a merecer também o afeto de Ulysses.  Dele guardamos em casa duas relíquias, ambas relacionadas com o Moreno.  Uma, a foto de Ulysses com Rodrigo  no colo, segurando desajeitado aquela trouxinha azul, aos sete dias de nascido.  Ele pedira a Moreno que o levasse a visitar-me mas teria que ser bem cedo, pois que o Congresso fervia com as preliminares do impeachment de Collor.   A outra é um exemplar da primeira edição da Constituição, dedicada ao Rodrigo por Ulysses no dia 6 de outubro de 1992. Era aniversário dele, eu e Moreno fomos cumprimentá-lo.  Na véspera, a nova Constituição completara quatro anos.  Ulysses perguntou pelo “garoto”,  puxou o exemplar da gaveta, fez a dedicatória  e me disse. “Entregue quando ele crescer”. Ulysses morreu seis dias depois.
         No ano passado, quando Rodrigo ingressou na carreira diplomática, Moreno me ligou. “Você ainda tem aquela foto do meu afilhado no colo do Dr. Ulysses?”. Claro que sim.  Ele tivera uma ideia. O Globo estava preparando um material sobre o centenário de Ulysses. Moreno pensou em fazer um box mostrando que o menino que Ulysses pegou no colo agora era diplomata e guardava a Constituição autografada.   Rodrigo, porém, achou que não ficaria bem para ele. Pareceria exibicionismo. “ Ele tem razão”, concordou o padrinho.
         Voltemos ao jornalismo, embora eu insista: na vida de Moreno não houve esta fronteira.   Em algum momento,  eu e ele, por alguma indisposição doméstica, atravessamos a rua a convite do Ricardo Noblat e fomos trabalhar no Jornal do Brasil, no prédio defronte, onde já trabalhava o Rodolfo.    Acabamos voltando os três para O Globo.  Quem se empenhou muito nisso foi o Carlos Lemos, então diretor da sucursal, com o apoio de Evandro Carlos.  Isso foi em 1987,  depois da Constituinte.  Eu voltei para assinar a coluna da página 2, que antes apenas redigia.  Desde então atuamos muito em “trio”. Em 2010, eu era presidente da EBC, trabalhava como uma louca mas Moreno precisava almoçar comigo. Tinha algo grave a me contar. Lá fui, e só depois que me empanturrei de arroz com galinha, pois agora já não ia tanto a sua casa, ele desembuxou: Rodolfo tinha uma doença grave e morreria em breve. Chorei em silêncio enquanto ele me passava a mão nos cabelos.
                  Os anos 90 foram ricos e inesquecíveis, trazendo inclusive mudanças tecnológicas.  O jornalismo vive anos que considero os mais positivos para a mídia brasileira. Neste período, a imprensa contribuiu efetivamente para  a  consolidação da democracia e para a superação da hiperinflação.   Havia nas redações um pluralismo que não existe mais.   Competição sempre houve, é da natureza de qualquer ofício, mas não havia ainda a intolerância para com a posição do outro. Não havia a busca do pensamento único que vai desaguar no macarthismo do anos 2000, especialmente depois da chegada de Lula à presidência.  Não havia o antipetismo, o direitismo exacerbado de alguns, nem  aconteciam expurgos ideológicos, como estes que vieram a ter lugar mais tarde,  transformando as redações em manadas adestradas.  Moreno, é claro, continuava sendo o alfa e o beta da redação de O Globo.   Ralava de dia e à noite reinava na “turma do Pacu”.   Ela não reunia apenas jornalistas e nem só jornalistas de O Globo.  Havia certa flutuação mas alguns eram sócios permanentes, como Rodolfo Fernandes e Sandra,   Gilnei Rampazzo e Eliane Cantanhede, Cristiana Lobo e Murilo, Ana Tavares, Mariângela Hamu, Laerte Rimoli, Eraldo Pereira e Cecília, Helena Chagas e Bernardo.   Além de Erlanger,  Ali Kamel e Dacio Malta, ao tempo em que foram os diretores da sucursal.  Se alguns omito, é por esquecimento.   Ás vezes nos reuníamos só para comer, beber e falar mal do mundo. E como se comia ali, já sob Carlúcia: arroz com galinha caipira, arroz de pato, costelinha assada, farofa de banana da terra, pernil de cordeiro com molho de romã, leitões e leitoas e...pacu.  Cabe aqui uma ressalva antes que me entendam mal. Falei em grandes goles aí no título como metáfora para quem viveu intensamente mas Moreno nunca bebeu. Como eu. Nem por isso, deixava de ter um bom vinho ou um uisque para os que apreciavam.  Nestas orgias gastronômicas do seu tempo de Brasilia, havia sempre ou quase sempre um ou mais políticos convidados, e Moreno sabia como compor o grupo, pois que estes encontros quase sempre se transformavam em entrevistas coletivas em off.   Que saudade tenho de suas festas juninas, onde eu tinha sempre a tarefa de fazer o quentão. Estas festas eram só nossas. Depois que ele se foi para o Rio, a turma acabou. Assim como agora não haverá quem reúna o glamuroso  grupo da Lage.
         Em Brasília, tudo mudou nos anos 2000. Os tempos finais do governo FH foram críticos. Governo desgastado, crise cambial, expectativa de mudança com a eleição de 2002.  Com a vitória de Lula,  começa a transmutação da imprensa em oposição.  Jantares entre políticos e jornalistas, como se viu, eram normais. Mas quando eu fiz um jantar-entrevista coletiva com o presidente Lula, convidando colegas de todos os jornais,  o mundo caiu sobre mim.  Em 2007, eu estava asfixiada. Não hesitei quando,  através do Franklin Martins,   - que chefiara a sucursal de O Globo, fora diretor regional da TV Globo e com quem eu atuara na Globonews – Lula convidou-me para liderar a  implantação da EBC e da TV Publica, a TV Brasil.   Não vou aqui discutir o projeto nem minha decisão, que Moreno não aprovou. Achou que era loucura.  Para piorar, quando ele ficou sabendo eu já acertara minha saída com Rodolfo e João Roberto Marinho no Rio. Achou que foi deslealdade mas não poderia ter sido de outro modo.    Mesmo discordando, fez minha festa de despedida e dedicou-me texto lindo em seu blog. Ali, diariamente, eu postava um comentário para a “Radio do Moreno”, que ele inventara. Ele gostava, dizia que chamava ouvintes. E eu fazia de bom coração, embora não fosse minha obrigação. 

         Com minha saída das Organizações Globo, e a mudança dele pro Rio,  houve o inexorável distanciamento, que nunca porém abalou meu afeto e minha admiração pela pessoa tão singular que, como escreveu Kamel, deixou marca tão linda em todos nós. Nos últimos dias, ruminei algumas poucas palavras que precisava dizer sobre Moreno quando chegasse em casa. Acabaram sendo talvez demasiadas, falei dele e também de um tempo que não volta mais, em todos os sentidos. Demasiadas, mas na medida do meu sentimento.  Agora posso dizer:   Vai, Jorge, agora você é um mito. E mitos não morrem jamais.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Ponto de reencontro

Caros amigos, amigas, leitores, interlocutores....
Na quinta-feira, primeiro de maio, dia do Trabalho, publiquei minha ultima coluna no Correio Braziliense e jornais dos Diarios Associados.  Pulemos o capitulo das razóes. A muitos que lamentaram, no Facebook, no Twitter e por email, apontei este blog como ponto de reencontro. Aqui tentarei dar continuidade ao trabalho analitaico que fazia na coluna sobre nossa sempre conturbada conjuntura politica. Depois de uma intervençao na arquitetura do blog, poderei postar videos e áudios. Inclusive os comentarios no telejornal RedeTV News. Por hora, deixo apenas os textos deles, depois que forem ao. O telejornal vai ao ar 22hs15 min e eu comento nas 3as e 5as. feiras por enquanto. Ate.
Tereza

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A poesia resiste

(Publicado no Correio Braziliense)

O lançamento de um livro de verdadeira poesia é sempre motivo para celebração: já não há lugar para o poema em nosso tempo real, duro e global, movido a informação. Não se publica poesia porque os poetas estão em extinção. Ou será o contrário? Volta a Ítaca, que está sendo lançado pela parceria entre as editoras Lacre e Boca da Noite, é um livro que nos devolve o sonho helênico, matriz de todos os sonhos ocidentais, nos versos do brasileiro Virgilio Costa e nas gravuras da artista plástica grega Artemis Alcalay. Como diz o poeta Alexei Bueno em seu prefácio, o verso e o traço ganham “uma simbiose perfeita e inarredável”.

A Grécia, seus deuses, mitos e heróis, inspiraram dezenas, talvez centenas de obras literárias, na prosa e na poesia. Boa parte delas centrada em Ulisses, em sua venturosa viagem de volta à ilha de Ítaca, enfrentando o mar bravio, os ciclopes, os dragões e o canto traiçoeiro das sereias. Os poemas de Volta a Ítaca cultuam esse universo não como pura evocação histórica, mas para falar de sentimentos e situações de nosso tempo.

Alguns, mais confessionais, falam de exílio, andanças por terras distantes, enfrentamentos políticos, o amor e as perdas, na experiência do autor. O mar é uma constante, plácido ou agitado. “É um viagem. Nostalgia. Noite no Mar Egeu. Barco de homens de pele queimada e estranha língua. A mesma face, a mesma raça”, ressaltam os versos de Virgilio.

O poeta, doutor em artes e humanidades, mestre em artes visuais, graduado em teoria da comunicação, é pesquisador em história da Casa de Rui Barbosa, ensaísta e pintor.
Os desenhos de Artemis foram produzidos em Nova York de 1985 a 1995. “São frutos de árvores distintas, debaixo da mesma tempestade”, destaca Virgilio. A nostalgia pela Grécia e o sentimento comum de exílio refletido nos poemas do amigo criaram as bases para o livro, aponta Artemis. Um livro para ser sorvido, nos versos e nas formas. De volta a Ítaca será lançado amanhã, na Casa de Rui Barbosa, no Rio, com a exposição das gravuras. O lançamento em Brasília está sendo programado.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Cores fúnebres: morre o artista plástico Luiz Carlos Cruvinel

Amigos, amigas,
Este blog esta´virando um obituário prolongado. Morreu esta noite o pintor, arquiteto, artista plástico e pensador irreverente Luiz Carlos Cruvinel. Aos de Brasilia, informo que será velado esta tarde no Campo da Esperança, tempo 2.
Por ora, na falta de tempo, republico o post que saiu aqui, sobre sua ultima exposição. Ele deixa uma obra linda, a mulher Alcione, os filhos Júnior, Julia e Marina, seis netos e muito saudade. Segue o post.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Amostras de Cruvinel (o pintor)



Isso aqui é uma pequena amostra da exposição  maior "Amostras de Cruvinel", que estará no Mezanino do Teatro Nacional de Brasilia, do dia 20, sexta-feira próxima, ao dia 28 de julho deste 2012, com apoio da Secretaria de Cultura.do GDF. A exposição faz parte do encontro "Contemporâneos Velhos de Guerra", que reunirá em Brasília, pela sexta vez, ex-alunos e ex-professorse da UnB nos anos 60,  anos de sonho, utopia e tragédia da Universidade criada por Darcy Ribeiro. Eles ousaram nas artes e nas ciências, quebraram tabus e enfrentaram a ditadura.  Com um deles, ela desapareceu, e agora esperamos que a Comissão da Verdade revele o que aconteceu com Honestino Guimarães depois de ser preso no Campus, em 1968, com os colegas protestando e cercando a viatura. Naquela crise, a Universidade foi invadida, muitos foram presos, cerca de 200 professores, que incluiam nomes da fina flor da inteligência brasileira de então, foram demitidos ou se demitiram.  O físico Roberto Salmeron foi um deles e tem um belo livro sobre o assunto. Padu, o jornalista Antonia Padua Gurgel, também escreveu sobre esta saga. Eu vivi tudo isso novamente, de forma um pouco mais amena, nos anos 70. Quem arregaça as mangas para que este encontro aconteça, mais que todos, é o arquiteto Antonio Carlos Morais de Castro, o Morais. Falei muito do encontro, agora falo do pintor e sua obra.
Antes que me pergunte, Luiz Carlos Cruvinel é de Morrinhos, Goiás. Eu,  de Minas. Coromandel/Abadia dos Dourados. Os meus ancestrais, como os dele, sairam do núcleo Cruvinel de Uberaba, uma gente que veio vindo, do litoral para o Sertão de Minas, passando por São João Del Rey,  Guaxupé, Formiga, Desemboque, Sacramento etc. Então, em algum distante lugar do passado, somos parentes. No sangue. Mas no coração, Cruvinel é meu-primo irmão de primeiro grau. Se eu falar que é irmão, o Luiz Humberto Cruvinel, fotógrafo, meu único irmão biológico, ficará  com ciuúmes. Luiz Carlos tem este lugar no meu coração, pela pessoa inteligente, correta e generosa que é,   pelo artista que habita nele. Tudo extensivo à  Alcione, sua mulher, também artista plástica, ao Júnior, Julia e Marina. 
 Adolescente,  pouco depois  de chegar a Brasília deparei-me um dia com  uma exposição dele na galeria da W-3 Sul, 508, da Fundação Cultural. Acho que não existe mais. A W-3 norte não existia.  Fiquei curiosa e nunca descansei até conhecê-lo,anos depois, numa tarde seca,  no decadente conjunto Conic, onde tomamos muitos cafés com pão-de-queijo trocando figuras sobre os Cruvinel, uma gente muito louca que não vem ao caso aqui. Nunca mais nos perdemos. Participei, indisciplinadamente, de O Caixote, a linda revista eletrônica de arte que ele produziu com Lizete Mercadante e outras pessoas criativas e criadoras. Pode ser visitada e lida ainda, na Internet. 
Não sou crítica de arte, apenas amante. Os quadros dele me impactaram, desde a tal exposição que vi pela primeira vez. Mais tarde é que conheci a obra de Siron Franco, e soube que os dois e outros mais compunham uma especie de nova escola de arte goiana. O fato é que achei tudo muito lindo nos quadros do Luiz:  a fina técnica, o pincel quase invisível,  os temas, um quê de surrealismo, o vermelho e o azul gritantes. Para não falar bombagem, reproduzo o que Walmir Ayala disse dele: 
"Cruvinel extrai do caos a imagem do homem contemporâneo. Como tantos artistas de tantas épocas, esta imagem surgia sem gosto terrestre (no dizer ceciliano), perplexa como a dos nascituros condenados à vida"..."A tudo isso Cruvinel propõe uma energia cromática que se liga ao remoto oficio arquitetônico. Arquiteto e pintor tocam-se as máos e forjam um tempo plástico que se consuma original, na medida em que se torna verdadeiro e lúcido".
Mais não digo. Convido meus conterrâneos e contemporâneos de Brasília (eu sou UnB anos 70, combinado?)  a visitarem a exposição do Luiz, fruindo um momento de prazer diante do belo.  E os dos anos 60, a procurarem o Morais caso queiram participar da programação do encontro, "Contemporâneos Velhos de Guerra", parafraseando mestre Waldirmir Carvalho, para  recordar aqueles tempos inesquecíveis.
TC
.
 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Adeus, Lyra

A última postagem neste blog foi sobre a morte de Sergio Miranda. Volto a ele, que anda descuidado, para falar de Fernando Lyra, a quem devemos tanto. Partiu hoje.



Adeus, Lyra

A democracia foi a paixão de Fernando Lyra na política.  Hoje, sob o impacto de sua partida, olhando para trás é possível compreender que só a paixão leva um homem a mudar tão radicalmente de tática para alcançar seu objetivo. Foi o que ele fez, e era grato à vida por ter sido vitorioso.  “Posso dizer que realizei meu maior sonho”, disse anos depois. Ele ajudou a realizá-lo, para todos nós, porque não temeu o perigo nem hesitou na encruzilhada. 
No plano nacional,  Lyra desponta em 1970, como deputado federal pelo MDB, depois de ter sido deputado estadual em Pernambuco. Filiou-se logo ao “grupo autêntico” do partido, que fazia uma oposição mais vigorosa à ditadura, denunciando torturas, prisões, desaparecimentos, casuísmos.  Com sua voz de trovão, estava sempre na tribuna, bradando contra o “arbítrio”, palavra que apreciava.  Nem mesmo os autênticos usavam muito a palavra “ditadura”. Do outro lado, os moderados liderados por Tancredo e Thales Ramalho, sempre preocupados com o humor dos quartéis, recomendando cautela para que não houvesse “retrocesso”. Mas Fernando não era só de tribuna, gabinete e salão verde, embora flanasse pelo Congresso com grande prazer. Ele era das ruas, dos debates onde era possível, estava sempre na UnB e em outras universidades, apoiando os estudantes e outros movimentos de resistência. . Os tempos eram amargos mas ele era bem humorado, irônico, piadista, afetuoso, mordaz.  Não perdia piada e era capaz de rir até de si mesmo.
Na luta interna do PMDB, entre as duas alas, era um crítico impiedoso de Tancredo e dos moderados. Achava que,  tensionando e acumulando forças é que o MDB derrotaria a ditadura. Acredito que começou a fazer sua transição em 1977, no debate sobre a reforma do Judiciário apresentada por Geisel. Tancredo apelou para que o MDB votasse a favor. Não podiam cutucar a onça com a vara curta. O regime , que prometia abertura, podia recrudescer. Os autênticos teimaram e votaram contra, derrotando a proposta com a ajuda de dissidentes da Arenda.  Geisel fechou o Congresso e usou o AI-5 para baixar o pacote de abril: o mandato dos presidentes, ou seja, do general sucessor, seria de seis anos. Um terço do Senado, nas eleições seguintes, quando seriam renovados 2/3,  seria composto por senadores biônicos, eleitos indiretamente, garantindo o controle do Congresso pela ditadura. Mas não foi desta vez que ele se rendeu claramente a Tancredo.
A abertura deu novos passos, Em 78, o estrategista do regime, general Golbery, sentindo que a oposição estava mesmo acumulando forças, deflagra uma reforma partidária para dividi-la.  A Arena muda de nome e vira PDS. O MDB coloca um P antes da sigla para manter sua identidade. Tancredo e os moderados fundam outro partido, o PP, mas são obrigados a retroceder. O regime impõe o voto vinculado para as eleições de 1982. O eleitor poderia votar apenas em candidatos de um mesmo partido. Pequeno, o PP não teria futuro.  Com a reforma, ressurge o PTB, do qual Ivete Vargas se apropriou, forçando Brizola a criar outro partido trabalhista, o PDT. Logo depois surgiria o PT. Em 79, pressionado pelos movimentos da sociedade civil e por greves de fome de presos políticos, o presidente Figueiredo apresenta a Lei da Anistia. Lyra e os parlamentares da vanguarda do PMDB que, ampliada, agora era chamada de “ala progressista”, resistem ao artigo pelo qual serão anistiados tantos os que combateram o regime como aqueles que os perseguiram, mataram ou torturaram. Ele foi um dos que esbravejou mas não tiveram forças para modificar a proposta, o que até hoje impede a punição dos criminosos do regime.
A virada de Lyra acontece em 1982.  Neste ano ocorreram as primeiras eleições diretas para governador depois do golpe de 64. O PDS ganha em 12 estados, o PMDB em nove, o PDT no Rio, com Brizola. Mas o regime só ganhou na periferia. O PMDB elegeu Montoro em São Paulo, Tancredo em Minas, José Richa no Paraná, Miguel Arraes em Pernambuco, Pedro Simon no Rio Grande do Sul, por exemplo.  Lyra contou, anos depois, que no dia da posse não se programou para ir a Recife, como seria natural.  Disse a Márcia, sua mulher. “Vamos a Belo Horizonte, para a posse do governador Tancredo Neves”. Tancredo o convidou para um grande almoço no Palácio das Mangabeiras, ao final do qual, Lyra pôde lhe dizer: “Dr. Tancredo, vim aqui para lhe dizer que o senhor é o meu candidato a presidente”. Tancredo reagiu com um “não me fale disso”. Lutara muito para chegar ao Governo de Minas,  não poderia deixar o cargo dentro de dois anos.
            Naquele momento, a candidatura só poderia ser de alto risco. Ulysses Guimarães fora anticandidato pelo Colégio Eleitoral, contra Geisel, para marcar posição e denunciar a “farsa” do regime. Em 1978,  o PMDB voltou ao Colégio Eleitoral, contra Figueiredo, com a candidatura de um militar, general Euler Bentes Monteiro.
            Mas a roda da historia começava a girar com mais velocidade. Em 1983 um jovem deputado eleito no mesmo pleito de 82, Dante de Oliveira, apresenta emenda constitucional propondo eleições diretas para presidente em 1985, quando terminaria o mandato de Figueiredo. Inicialmente não é levada a sério mas Ulysses Guimarães e o alto comando do PMDB abraçam a emenda. As oposições se unem e deflagram o movimento popular pelas “diretas-já”, que promoveria as maiores manifestações de massa do período militar. Ulysses seria o candidato natural se a emenda passasse.
            Lyra mergulha na campanha, vai a todos os comícios,  arregimenta artistas, integra o comitê de deputados do comando da campanha, combina com entusiasmo suas virtudes de agitador e articulador.  Mas já se tornara um interlocutor de confiança de Tancredo e, com outros moderados, sustentava que, se a emenda não passasse, o PMDB deveria participar do Colégio Eleitoral tendo Tancredo como candidato. Moderado, seria assimilado pelos militares se derrotasse o candidato civil do PDS, Paulo Maluf. A emenda não passa, começam as articulações da candidatura de Tancredo. Ulysses e os progressistas inicialmente resistiam mas acabaram se rendendo. “Vamos de nariz tapado”, dizia Ulysses, referindo-se ao “instrumento da ditadura”, o colégio de 694 eleitores, composto por deputados, senadores e representantes da s assembléias legislativas. Lembro-me de Lyra nesta fase, com o mapa do Colégio Eleitoral sobre a massa, marcando cruzinhas nos votos que considerava certos para Tancredo. A vitória foi possível graças aos votos dos dissidentes do PDS que racham com o regime e fundam a Frente Liberal, que indica Sarney como candidato a vice.
            Lyra agora era um dos homens fortes de Tancredo, que é operado na véspera da posse e vem a morrer 39 dias depois.  Lembro-me dele abatido e atônito no Hospital de Base de Brasília, para onde  acorreu todo o mundo político na longa noite de 14 de março.
            Sarney, empossado, mantém os ministros escolhidos por Tancredo, mesmo depois de sua morte. Com Lyra, teve alguns conflitos. Lyra o chamou de “vanguarda do atraso”. Cometeu a gafe quando tentava explicar por que o PMDB o escolhera como vice. Fernando Henrique, pouco tempo depois, faz um duro ataque ao presidente e à sua política econômica. “Eu pisei no tomate mas ele pisou no tomateiro todo”, diz o ministro da Justiça, para delícia da crônica política.  Sua gestão no Ministério da Justiça foi uma faxina no que ele chamou de “entulho autoritário”. Acabou com o departamento de censura, revogou leis e decretos arbitrários, começou a desmontar os aparelhos repressivos, a implementar mais amplamente a Lei da Anistia.
            Saiu em 1986, renovou o mandato e, sentindo-se desconfortável no partido que já não era o mesmo, filiou-se ao PDT. Foi vice de Brizola na campanha presidencial de 1989. A saúde começou a fraquejar. Em 1990, ficou como suplente mas acabou assumindo o mandato e se reelegendo em 1998. Depois, a combinação entre saúde debilitada por cinco pontes de safena e certa decepção com a atividade parlamentar rotineria,  levou-o a desistir das eleições. Apoiou Lula em 2002 e foi nomeado presidente da Fundação Joaquim Nabuco, onde fez um belo trabalho de valorização da cultura e da memória política.   Filiou-se ao PSB e apoiou a eleição de Eduardo Campos para governador. Os tempos difíceis haviam ficado para trás, os tempos da paixão também.  A democracia era uma realidade.
            Para mim, como para muitos jornalistas, ele passou de fonte a amigo.  Quando ligava, dizia: “É Fernando Lyra, já me esqueceu? “. Da última vez que o vi, em Recife, levou-nos, a um grupo de Brasília, para almoçarmos num restaurante rústicoem Jaboatão. A dona era sua amiga, a comida, maravilhosa.  Entre a moqueca e as caipirinhas de pitanga, recordamos os velhos tempos.
            Dele, podemos todos dizer o que ele disse de Cristina Tavares, sua companheira do grupo autêntico, no prefácio que lhe pedi para escrever ao perfil biográfico dela que produzi para a Câmara dos Deputados: “Foi esta grandeza interior que se espalhou como uma luz nas trevas, quando a luz era mais necessária. Que rompeu a amargura de tempos difíceis, como um rasgo de esperança. Que se transformou em anúncio permanente de um tempo melhor”.
           

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sergio Miranda



 
O mundo fica pior cada vez que perdemos um dos nossos melhores. Sérgio Miranda foi um homem público exemplar, um intelectual de resultados e um ser humano excepcional. As convicções políticas o guiaram desde os 15 anos, quando começou a militar no movimento estudantil em Fortaleza e entrou para o PCdoB. Foi preso em Ibiúna em 1968 e expulso do curso de matemática da UFCE. Vieram anos de clandestinidade. Viu companheiros, como Helenira Resende e Robson Gurgel, partirem sem volta para o Araguaia. Viu serem trucidados pela ditadura dirigentes como Pedro Pomar e Angelo Arroyo.
Conheci-o na CPI dos Anões do Orçamento, em 1993. Havia chegado à Câmara como suplente de Célio de Castro e logo se destacou pela combatividade e pela aplicação aos temas de seu maior interesse na esfera do Estado: a dívida pública, os direitos sociais e previdenciários, as questões orçamentárias, as telecomunicações. Logo apareceria nas listas dos mais influentes. Tinha causas, não interesses. Ajudei modestamente na divulgação de alguns, destacando a parceria com ele e Walter Pinheiro para impedir, no governo FH, que os recursos do Fust fossem apropriados pelas teles.
No início do governo Lula, votou contra a reforma previdenciária e foi punido com uma suspensão pelo PCdoB. O PT fez o mesmo com seus dissidentes. Esse ato de força desnecessário contra quem dedicara 43 anos à legenda comunista dividiu sua vida. Saiu do partido, entrou para o PDT, mas não se elegeu em 2006 nem em 2010. A perda do mandato certamente cortou-lhe parte do oxigênio que nutria seu DNA político.
Combatente, Sérgio era também um homem culto e sensível, amante das artes e da literatura, especialmente da poesia. Por sua partida, tomo emprestada a primeira estrofe de Funeral blues, de Auden, poema de que ele muito gostava: “Detenham os relógios/calem o telefone/joguem um osso ao cão para que não ladre mais/façam silêncio os pianos/e o tambor sancione o féretro/que sai com seu cortejo atrás”. 
 
Publicado no Correio Braziliense - 27.11.2012 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Déda me manda um poema

 Marcelo Déda é governador de Sergipe. Para mim, será sempre um amigo e confidente, uma pessoa excepcional: pela inteligência, integridade, cultura,  sensibilidade e muitos outros atributos. Pouco depoios de ver as fotos do SNI, postadas ontem, mandou-me este lindo poema, claro com a alma dele. Poesia não é para guardar na gaveta, é para compartilhar. Ei-lo.

As fotos de Tereza


O momento era tenso
o inferno era perto
mas o olhar era lindo
e a menina de bata
encarou o fotógrafo
sem temer seu destino.

O momento era certo
o inferno era findo
quando o olhar do destino
fotografou a menina
já mulher sem a bata
e ela estava sorrindo.


Marcelo Déda
Bsb, 16.08.12